Os próximos trinta anos podem não ver os tão esperados (e temidos) bebês "perfeitos", mas podem melhorar, e muito, as chances de sobrevivência das futuras gerações, segundo diversos especialistas ouvidos pela revista britânica “Nature”. Trinta anos atrás, em 25 de julho de 1978, o mundo viu o nascimento de Louise Brown, o primeiro bebê de proveta do mundo – hoje a inseminação artificial já virou prática médica comum. Agora, os cientistas fazem suas apostas sobre qual será a revolução que se tornará coisa do dia-a-dia em 2038.
Para a especialista em medicina reprodutiva Susannah Baruch, diretora do Centro de Genética e Políticas Públicas da Universidade Johns Hopkins, em Washington, o temor dos bebês feitos sob encomenda não se tornará uma realidade – pelo menos, não em trinta anos. “Os dados não apóiam isso”, afirma ela. “Não existe um gene que promova o cabelo loiro, a magreza, a altura ou qualquer característica que o ‘bebê perfeito’ possa ter”, explica.
O que pode vir a ser possível é escolher um embrião com chances melhores de ter alguma característica, dentro de um grupo. Mas isso traz impedimentos. Escolher o bebê com maior possibilidade de ser loiro pode resultar em um que tenha também maior chance de ter alguma doença. “Nenhum de nós é um espécime perfeito e nenhum de nossos embriões será”, diz Baruch.
“A grande pergunta é: o que as pessoas vão querer testar?”, questiona. Dada a opção de ter um filho com maiores chances de desenvolver um câncer ou um belo, parece difícil pensar que alguém vá escolher a beleza. Além, disso, lembra a cientista, “a inseminação artificial é cara e desconfortável.” “A forma a moda antiga é mais barata e mais divertida, e isso não vai mudar em trinta anos”, afirma a pesquisadora.
Se os bebês perfeitos (e assustadoramente idênticos) da ficção científica não estarão por aqui em 2038, outros bebês incríveis podem estar: aqueles que hoje não teriam chance alguma de sobreviver. Com o avanço da medicina, atualmente, bebês cada vez prematuros conseguem sobreviver. Há casos de crianças nascidas com apenas seis meses de gestação, pesando menos de 500g, que, com remédios e incubadoras modernos, sobreviveram – embora não sem muita luta. Em trinta anos, a coisa pode ir ainda mais longe.
Para o diretor do Centro de Ética da Universidade Estadual de Oklahoma, Scott Gelfand, o futuro pode ver bebês sobrevivendo com apenas 12 semanas – cerca de três meses – de gestação. O avanço, para ele, pode levar até a gestações completas em úteros artificiais. “Eu acho que isso é interessante e assustador”, diz Gelfand.
A tecnologia existe, mas, segundo o cientista, quem trabalha na área não fala abertamente sobre o assunto, por medo das implicações éticas e morais. De um lado, alguns podem achar que algo do tipo seria uma aberração que não poderia ser usada. De outro, ela poderia não apenas salvar a vida de bebês extremamente ameaçados, como também resolver problemas como o do aborto – mães que não querem a criança, em vez de abortar, poderiam entregar para clínicas e úteros artificias; depois o bebê seria entregue para adoção. Isso implica, no entanto, em outros problemas: com a quantidade de abortos realizados todos os anos (só nos Estados Unidos são um milhão), haveria espaço para gestar e adotar todas essas crianças?
Infertilidade zero
O que se sabe com mais certeza é que a infertilidade está prestes a se tornar uma doença em extinção. “Vejo a tecnologia indo em direção possivelmente à erradicação completa da infertilidade” acredita o diretor do Centro de Medicina Reprodutiva e Infertilidade de Nova York, Zev Rosenwaks. Apresentadas no final do ano passado, as células induzidas podem resolver a polêmica das células-tronco embrionárias e tornar possível que óvulos e espermatozóides sejam feitos a partir de um pedaço de pele.
E isso pode ser feito com pessoas de qualquer idade. “Recém-nascidos poderiam ter filhos e pessoas de cem anos poderiam ter filhos”, explica Davo Solter, do Instituto de Biologia Médica de Cingapura. Por tabela, casais homossexuais perdem o impedimento natural de ter filhos biológicos. Tudo isso, novamente, levanta questões éticas. “Provavelmente vamos passar pela mesma agonia que passamos com a inseminação artificial. Pode ser terrível no começo, mas depois se torna um fato da vida”, diz Solter.
Fonte: Globo